Páginas

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Homem Invisível

Certa vez conheci um homem que achava que era invisível. E, ele certamente o era. Ele falava e não era ouvido, ele pedia e não era atendido, ele entrava nos lugares e não era visto. Então, ao se olhar no espelho, o homem invisível mirava e não via ninguém. Assim, ele concluiu muito coerentemente que era invisível! Passou a andar por aí com ares de invisibilidade, já não falava com ninguém, não pedia nada, não queria nada. De alguma forma aquele homem tinha descoberto a fórmula da invisibilidade. Aquilo que os cientistas passaram tanto tempo pesquisando, experimentando, aquilo que a ficção passou tanto tempo forjando, para ele era real. Ele não sabia bem porquê, nem como havia ficado invisível, ele só sabia que não era visto e não se via.
No entanto, em um certo dia o homem invisível foi assaltado. Ele, durante muito tempo ficou sem entender o que tinha acontecido com sua invisibilidade que não havia funcionado naquele momento que ele tanto precisava!
Depois desse dia o homem invisível ficou confuso. Será que ele estava perdendo seus poderes?!
Foi então que ele percebeu que não era afinal invisível, que o que o tornava invisível eram as pessoas com as quais ele convivia que eram incapazes de exergá-lo e, até mesmo ele próprio que de tanto não ser visto tinha se apagado para sí mesmo.
Chocado com sua descoberta, o homem, agora não mais invisível, se olhou no espelho e passou, pouco a pouco a enxergar seus dedos, seu rosto, seu corpo, suas vontades. Deu um grito!!! Mas, esse grito não foi de dor, nem de espanto, foi um grito de quem enfim ouvia sua voz e a cuspia para fora com uma força quase que involuntária, incontrolável que veio de dentro tão forte que ele não consiguiu controlar e se rebentou na forma de grito.
Desse dia em diante o homem agora não mais invisível, decidiu que nunca mais usaria a fórmula da invisibilidade , trancou-a então em um cofre, a sete chaves e nunca mais deixou de se enxergar e de lembrar que por mais que existessem pessoas para as quais ele era invisível, isso não significava que ele o era.
E, toda vez que isso acontecia com ele, que ele era "invisibilizado", ele sorria por dentro, dava uma boa olhada para suas duas mãos e se lembrava de tudo aquilo que o fazia visível, seus valores, seus sentimentos, sua força. E, saia por aí a caminhar e a trombar nas pessoas e a sorrir porque ele sabia que as vezes, por mais que se fizesse, ninguém o veria, mas, ele também sabia que agora que ele próprio jamais deixaria de se enxergar, haveria sempre horas, locais e pessoas para as quais ele seria visível e ponto.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


Homenagens em vida

Noutro dia estava pensando em como seria bom se todos fizessem homenagens para as pessoas que ama, admira,respeita, gosta, etc... ainda em vida. Em muitos momentos, nos bons e nos ruíns, principalmente naqueles em que você não está exatamente acreditando em você e na vida, tudo que a gente precisa é ouvir algumas palavras boas, de admiração, respeito, afeto. Como é bom saber que existem pessoas no mundo que as vezes vêem qualidades na gente que a gente mesmo nunca viu ou já tinha se esquecido que tinha. As homenagens podem ser coisas bobas, pequenos gestos de dia-a-dia ou gestos grandiosos, monumentais. Não importa! O fato é que a gente tem a capacidade de gerar sorrisos, de fazer os outros felizes, nem que seja por um instante, na ponta de nossas línguas ou na palma de nossas mãos, então por que não fazemos?!
Porquê achamos que as pessoas já sabem, ou achamos que não vai fazer diferença, ou porquê nem pensamos nas qualidades e ficamos muito focados em outras coisas, nos defeitos, por exemplo, ou nos nossos problemas, em nós mesmo. Os motivos podem ser vários. Mas, nós, na maioria das vezes só vamos nos tocar e focar nas qualidades, naquilo que achamos especial quando as pessoas morrem ou vão embora. Tantas pessoas recebem inúmeras homenagens póstumas e nehuma em vida. Lí um livro uma vez em que o personagem principal pedia a todos os seus familiares, conhecidos e entes queridos que fizessem as homenagens e demonstrações (de afeto, carinho,etc..) que quisessem para ele ainda em vida pois, depois que ele já estivesse morto, do que adiantariam?!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio. Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos porque metade de mim é o que ouço mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço e que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso mas a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância porque metade de mim é a lembrança do que fui a outra metade não sei. Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito e que o teu silêncio me fale cada vez mais porque metade de mim é abrigo mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção. E que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também.